Crença. Confiança. Convicção. Transcendência. Equilíbrio. São muitos os conceitos sobre a fé. Mais que isso, é diversa a experiência individual, o encontro – ou desencontro – de cada um com ela.
Seja ela qual for. Não é, necessariamente, o caso de ter uma religião. A crença em si mesmo, na vida, no ser humano, também é um ato de fé. São caminhos diferentes, que podem se cruzar ou não.
“A fé dá o equilíbrio entre as nossas dimensões biológica, psicológica e
social. Ela traz o espiritual, que é onde estão a ética, a estética, a moral, os nossos valores e também a religião”, diz a psicóloga Sheila Maria Hesketh Rabuske, presidente da Associação de Logoterapia Viktor Emil Frankl.
É nossa dimensão que transcende. O que significa sair de si mesmo por
algo ou alguém. Uma mãe cuidando do filho doente pratica um ato de fé.
Assim como os apaixonados. É doação. Beethoven,
exemplifica Sheila, usava a dimensão espiritual quando compunha – saía
de si mesmo para pensar no belo. E por que ela cita o compositor alemão?
Porque para transcender não adianta fazer algo mecanicamente, é preciso
usar o coração. “Quando é feito com a emoção, é o que há de mais
humano.”
Para ela, não há diferença entre a fé ser religiosa ou
não. “O fenômeno religioso é mais um entre os valores espirituais.” O
importante seria ter um sentido. Foi o que constatou o médico psiquiatra
austríaco Viktor Emil Frankl, fundador da logoterapia,
uma forma de psicoterapia que busca resgatar aquilo que é
especificamente humano na pessoa. Sua experiência como prisioneiro em
quatro campos de concentração veio a confirmar sua teoria de que a busca
de um sentido para a vida é a principal força motivadora do homem. Lá
ele observou que sobreviviam aqueles que mantinham uma esperança. Ou fé.
Ciência e Religião
Outro cientista, acusado de ser ateu e introduzir a dúvida sobre Deus, na verdade acreditava que religião e ciência se complementam. O nome dele é Albert Einstein, que disse: “A ciência sem a religião é manca; a religião sem a ciência é cega”. Não que o autor da Lei da Relatividade
professasse alguma crença específica: era avesso a dogmas, autoridades e
instituições.
Segundo biógrafos do físico, ele se referia ao sentimento
religioso da própria pessoa, sem intermediários.
A ciência, aliás, continua tentando desvendar esse mistério.
Recentemente, exames de neuroimagem identificaram uma área cerebral que
é ativada quando o indivíduo está participando de ritos religiosos,
experiências místicas ou orando. “A fé é tão importante que a natureza,
durante a evolução, criou no cérebro uma área específica para
coordená-la”, afirma Naim Akel Filho, coordenador do curso de Psicologia e do Grupo de Estudos em Neurociência da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). “A fé tem um lugar privilegiado no cérebro. Todos nós temos esse potencial para crer, é uma das necessidades humanas”, acredita.
Essa área fica no lobo temporal, relacionado à memória e
às emoções. E é diferente da destinada ao otimismo, à autodeterminação e
autoconfiança. Essas são funções do córtex pré-frontal, ligado à
vontade e à razão. “Esse outro tipo de fé é voluntário e mostra um
excelente controle das emoções, é um sinal de saúde mental”, assegura
Akel Filho.
Mas, segundo ele, o ideal é aliar os dois tipos de fé: no sobrenatural e
em si próprio. “Quando há conflito entre razão e emoção ou consciência e
fé, vivenciamos uma situação de angústia. Quando creio nas minhas
competências e em uma entidade superior, as duas áreas cerebrais
funcionam em sintonia e eu tudo posso.”
A crença no sobrenatural tem outras vantagens sobre a racional. Ela acelera processos de recuperação e cura de doenças. “Deixa o sistema imunológico, que é relacionado a estados emocionais, muito mais ativo”, explica o psicólogo.
Mais sutil, mas não menos importante: a fé religiosa traz
respostas para dúvidas cruciais. Ou você nunca se perguntou para onde
vamos depois da morte? “Não há nada mais terrível para o ser humano do
que o desconhecido, que gera angústia, medo, ansiedade. Ele só encontra
essas respostas na fé”, lembra.
Para o padre Alexsander Cordeiro Lopes, assessor do setor Juventude da Arquidiocese de Curitiba,
essas respostas orientam nossa vida. “Todos nós precisamos de um
sentido.” E, quando colocamos esse sentido em situações transitórias –
como pessoas, dinheiro, juventude, projetos – a angústia é certa quando
eles se vão. “As pessoas religiosas enfrentam com muito mais
tranquilidade as situações ruins”, assegura o padre Alex.
Cleusa de Jesus Zanatta, supervisora administrativa e doutrinária da regional Paraná da Seicho-no-ie,
concorda. “A fé dá força e convicção para enfrentar o dia a dia. É
adquirir essa confiança de que tem algo superior que o ajuda, é
acreditar no sagrado, naquilo que não se vê, não se pode apalpar. Quando
você acredita que é um ser divino, consegue trabalhar em qualquer
situação.”
Extremamente otimista, a filosofia religiosa acredita
que o mal não existe, não foi criado por Deus, mas pelo homem. E que se
pode ter uma “fé errônea”. “Quando as pessoas acreditam na doença, na
maldade, elas acontecem. Se acreditam na violência e têm a vida norteada
por essa crença, vão passar por situações de violência. O pensamento é
força criadora”, diz Cleusa. Do mesmo modo funcionaria a confiança no
bem. Para o padre Alex, o ateísmo também é uma questão de fé. “É uma
aposta de que não há mais nada além do material”, filosofa.
Lealdade e consciência
“Fé não tem nada a ver com crença”, desconstrói o mestre em Educação Claudio Oliver,
que cuida da pastoral de uma pequena comunidade cristã. “É uma relação
de confiança e lealdade”, complementa. “O objeto da minha confiança vai
determinar a propriedade da minha fé.” Mas não pode ser algo, precisa
ser alguém. “A verdade é uma pessoa e para mim é Jesus. Prefiro
depositar minha confiança em algo mais concreto do que em mim mesmo. Mas
pode ser o ente que você quiser.” Na sua concepção, à medida em que se
confia, se é leal. “Se Ele disse algo, não vou desconfiar e vou ter uma
postura condizente.”
Os espíritas vão no caminho oposto. “Ter fé em Deus é
ter fé em si mesmo, acreditar na sua capacidade de identificar e
realizar suas próprias convicções. Sempre terei resultados de acordo com
as minhas próprias escolhas”, afirma o engenheiro eletrônico Nelson José Wedderhoff, coordenador de grupos de estudos na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE)
e conselheiro editorial da revista Ser Espírita. “Fé significa ter
consciência de que há justiça, liberdade e harmonia. Justiça é viver os
resultados das minhas escolhas, logo tudo da minha vida depende de mim.”
É um processo. E, como tal, de longo prazo. “Viver
não é só no curto prazo, onde espero milagres para de repente ter o que
eu quero. É longo prazo construindo seus sonhos.” Assim, quando a pessoa
de fé descobre que um projeto não deu certo, não se desmotiva. “Ela
sabe que é capaz, que o ambiente é justo e que quando estiver
capacitada, pelo próprio esforço, conseguirá realizá-lo”, avalia Nelson.
Questão de fé.
fonte: Gazeta do Povo - Viver Bem - Comportamento 24/12/2011