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08/06/2012

“A mídia social está matando nossa espécie”

Polêmico autor Andrew Keen diz em novo livro que redes como o Facebook exploram o narcisismo

Por Dan Farber, da CNET.com
Em 2007, Andrew Keen rotulou a internet como “ingovernável” em seu provocativo livro Cult of Amateur – how today’s internet is killing our culture (ver notas no final), onde defendeu a tese de que a mídia mainstream, os direitos autorais e a confiança do público estão sendo ameaçados pela profusão de conteúdos em blogs, YouTube e afins. Ele descreveu a situação como “a união da ignorância com egoísmo, mau gosto e anarquia”.
Em seu novo Digital Vertigo (vertigem digital), Keen ataca o Facebook e a web social argumentando que os compartilhamentos online estão “matando nossa espécie”, dividindo, menosprezando e desorientando a humanidade. Ele sustenta que uma forma de “narcisismo ou exibicionismo digital” está se tornando um aspecto proeminente da nossa cultura, e que o Facebook está “roubando a inocência da nossa vida interior”.
Segundo Keen, o compartilhamento excessivo dos nossos dados pessoais levará a uma geração de indivíduos sem “mistério”, que vivem isolados e forram os bolsos das empresas de mídia social que transformam esses dados em lucro.
Na entrevista que pode ser acompanhada no vídeo abaixo, Keen e eu debatemos sua visão de que a web social está conduzindo a civilização para o abismo e “roubando a inocência das nossas vidas interiores.”
Aqui estão alguns destaques da entrevista:
Keen diz que a espécie humana está entrando em um novo território: “Nunca vivemos uma época em que podíamos contar tudo sobre nós ao mundo.” Com efeito, as ferramentas da mídia social facilitam o compartilhamento e a disseminação da mentalidade “de rebanho”, mas nem todos no Facebook sentem-se compelidos a revelar seu “eu interior” ou curvar-se ao desejo de avatares digitais.
Keen cita nosso amigo mútuo Robert Scoble, o blogueiro de tecnologia por excelência, como um exemplo de exibicionistas: ele é um prodigioso compartilhador online, com mais de 1.6 milhão de pessoas em seus círculos do Google+, 321 mil assinantes do Facebook e mais de 262 mil seguidores no Twitter. Na realidade, Scoble não é mais que um pioneiro extrovertido que explora diferentes facetas da web e tecnologias relacionadas, usando a si mesmo como cobaia. E ele curte a atenção. O mundo analógico, da mesma forma que o digital, é povoado por aqueles que amam estar no palco e se mostrar aos outros, e aqueles que preferem apenas assistir ao show.
Em referência ao personagem de Jimmy Stewart em Vertigo, de Alfred Hitchcock, Keen disse: “Estamos vivendo um filme noir. Somos o cara que cai. Somos o Jimmy Stewart do século 21, e as pessoas estão realmente perturbadas com isso.” Em outras palavras, ele afirma que todos os que contribuem com dados para um gráfico social, que exibem seus “eus interiores” e entregam o que restou da sua privacidade, estão sendo vítimas de tramóias das redes sociais. Mas sabemos que nada é realmente “grátis”; redes sociais como o Facebook não são más, apenas “oportunistas”.
Keen sugeriu algumas soluções práticas para consertar sua idéia de que as redes sociais estão “matando nossa espécie”. Ele disse que as pessoas precisam praticar mais a autocensura e tomar suas próprias decisões sobre como usar os serviços da mídia social. Além disso, regulações governamentais como a Do not track, e um foco maior em inovação e tecnologia, podem ajudar a impulsionar a agenda de proteção à privacidade.
Seu conselho é que o novo mundo precisa reproduzir mais o mundo antigo: “À medida que vivemos mais e mais na internet, que está se tornando a plataforma de vida do século 21, ela precisa reproduzir o mundo ao qual estamos habituados, precisa se amoldar ao que desejamos”; e o que desejamos, segundo ele, não é ter nossa vida digital continuamente monitorada.
Se pudermos ensinar a internet a esquecer, então até eu me tornarei seu fã, eu até mesmo voltarei ao Facebook. Essa é uma promessa, Mark Zuckerberg”, disse Keen.
Apesar de algumas extrapolações, Digital Vertigo traz uma inovadora, inteligente e rigorosa perspectiva histórica ao debate sobre o nosso futuro digital. Como diz Keen, precisamos estar atentos ao como as redes sociais e os devices inteligentes estão invadindo nossas vidas. E não é sempre que um livro de leitura agradável sobre a natureza da web social consegue interligar na narrativa Jeremy Bentham, Franz Kafka, Herbert Marcuse, Michel Foucault, Dante Grabriel Rossetti, Jack Kerouac, George Orwell, Hitchcock, Sherry Turkle, Reid Hoffman, Biz Stone e Zuckerberg. Num universo alternativo, todos eles seriam amigos no Facebook.
Enquanto isso, o Facebook continua colonizando o planeta e, como faz agora, continua pensando em como atrair dezenas de milhões de crianças de 13 anos ou menos para a rede sociall.
Vídeo da entrevista de Andre Kenn 

Notas:
1. Cult of Amateur foi publicado no Brasil em 2009 pela editora Jorge Zahar, com o título O Culto do Amador.
2. Digital Vertigo: How Today’s Online Social Revolution Is Dividing, Diminishing, and Disorienting Us ainda não foi traduzido, mas sua introdução, em inglês, pode ser conferida aqui (http://www.scribd.com/doc/86221915/Digital-Vertigo-Excerpt ) 
3. Vertigo, filme distribuído no Brasil com o título Um corpo que cai, é um cult de 1958 dirigido pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock e estrelado por James Stewart. Este interpreta um detetive aposentado que tem pânico de altura e é contratado para investigar uma mulher misteriosa (Kim Novak).

fonte: http://www.proxxima.com.br/proxxima/negocios/noticia/2012/06/05/A-midia-social-esta-matando-nossa-especie.html