| Novos experimentos mostram que pensamento analítico pode enfraquecer intuição e crenças | ||||||
| por Marina Krakovsky | ||||||
A pesquisa, conduzida pelos psicólogos Will Gervais e Ara Norenzayan, da University of British Columbia, não toma partido no debate entre religião e ateísmo, mas pretende desvendar uma das origens da crença e da descrença. “Para entender a religião entre os seres humanos”, orienta Gervais, “é preciso se acostumar com o fato de que existem milhões de crentes e descrentes”. Um de seus estudos relacionou crença religiosa com resultados de um teste de raciocínio analítico. O teste apresenta três problemas de matemática que parecem simples. Um deles pergunta: “Se são necessários cinco minutos para que cinco máquinas produzam cinco rebimbocas, quanto tempo é necessário para que 100 máquinas produzam 100 rebimbocas?”. A primeira resposta que normalmente vem à mente – 100 minutos – está errada. Pessoas que param para pensar na resposta correta (cinco minutos) são, por definição, mais analíticas – e tendem a receber notas mais baixas nos testes de crenças religiosas. Mas os cientistas foram além dessa ligação interessante e conduziram quatro experimentos que mostram que o pensamento analítico realmente leva à descrença. Em um deles os participantes foram aleatoriamente colocados no grupo analítico ou no grupo de controle. Em seguida, os pesquisadores mostraram fotos d’O Pensador, de Rodin, para os “analíticos” e imagens da antiga escultura grega Discobolus, que mostra um atleta pronto para lançar um disco, para o outro grupo. O Pensador foi usado por ser uma imagem tão icônica da reflexão profunda que em um teste separado, com participantes diferentes, observar a fotografia ajudou as pessoas a resolver silogismos lógicos. Após olhar as imagens, os participantes realizaram um teste que media sua crença em Deus, em uma escala de 0 a 100. Os resultados variaram muito, com um desvio padrão de cerca de 35 pontos. A diferença das médias foi o fator mais importante: no grupo de controle, a pontuação média para a crença em Deus foi de aproximadamente 61 pontos. Entre os voluntários do grupo que havia contemplado O Pensador, a média foi de apenas 41. Esse intervalo é grande o bastante para indicar que pessoas com mais crenças estavam respondendo como se fossem descrentes – tudo isso ao serem lembrados da capacidade humana de pensar analiticamente. Outro experimento usou um método diferente para mostrar um efeito semelhante. Ele explorou a tendência, anteriormente identificada por psicólogos, que as pessoas têm a eliminar a intuição quando precisam ler um texto escrito em uma fonte difícil. Gervais e Norenzayan fizeram isso ao dar aos dois grupos um teste sobre sua crença em entidades sobrenaturais, como Deus e anjos, variando apenas a fonte em que o texto foi impresso. Quem fez o teste com a fonte menos legível (um tipo de letra de máquina de escrever em itálico) expressou menos crença que aqueles que leram a fonte mais comum e mais fácil. “É uma manipulação muito sutil”, observa Norenzayan. “Ainda assim, algo que parece trivial pode levar a mudanças que as pessoas consideram importantes em seus sistemas de crenças religiosas”. Em uma escala de 3 a 21, os participantes do grupo analítico tiveram quase dois pontos a menos que os participantes do grupo de controle. | ||||||
O
pensamento analítico enfraquece a crença porque ele pode substituir a
intuição. E sabemos, com base em pesquisas anteriores, que crenças
religiosas como a ideia de que objetos e eventos existem com um
propósito têm suas raízes na intuição. “O processamento analítico inibe
essa outra forma de pensamento, o que acaba desencorajando o pensamento
religioso”, explica Norenzayan.
O psicólogo Joshua Greene, de
Harvard University, que publicou um artigo ano passado sobre o mesmo
assunto elogia o trabalho por sua metodologia rigorosa. “Qualquer um dos
experimentos pode ser reinterpretado, mas quando temos diferentes
evidências apontando na mesma direção, é muito impressionante”.
O
estudo recebeu também notas altas de Francisco Ayala, biólogo evolutivo
da University of California, o único ex-presidente da Associação
Americana para o Avanço da Ciência que já foi padre católico e continua
afirmando que ciência e religião são compatíveis. Ayala diz que o estudo
é engenhoso e só fica surpreso com o fato de seus efeitos não serem
ainda maiores. “Pode-se esperar que as pessoas que desafiam as crenças
gerais de sua cultura sejam, obviamente, mais analíticas”, reforça ele.
Os
pesquisadores, por sua vez, apontam que tanto a razão quanto a intuição
têm seus lugares: “Nossas intuições podem ser extremamente úteis”,
argumenta Gervais, “e o pensamento analítico não é nenhum oráculo da
verdade”. Greene concorda, ao mesmo tempo em que levanta uma pergunta
provocativa implícita nas descobertas: “Obviamente há milhões de pessoas
muito inteligentes e geralmente racionais que acreditam em Deus. Esse
estudo não prova nenhuma não-existência, mas lança um desafio: Se
entidades sobrenaturais existem e se acreditar nelas é perfeitamente
racional, por que um aumento no processamento analítico tende a diminuir
crenças?”.
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